O céu não luta contra as nuvens

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o tempo da luta acaba
quando até a própria busca por pureza
começa a cansar.

há um instante silencioso
em que a alma percebe:
nenhuma flor se abre
pela violência.

por muito tempo,
a mente vigia os próprios passos
como quem atravessa um campo minado.

cuidado para não inflar.
cuidado para não desejar.
cuidado para não se perder.
cuidado para não ser vista demais.
cuidado para não desaparecer.

e então,
sem perceber,
a vida vai sendo vivida
com os punhos fechados.

mas o coração não floresce
sob vigilância.
floresce
quando o espaço se abre.

há uma exaustão sagrada
em tentar sustentar
uma imagem impecável diante de Deus.

porque até o desejo de parecer humilde
ainda pode ser vaidade disfarçada de luz.
e que alívio
quando isso é visto.

o rio não pede desculpas
por correr.

o vento não se explica
quando toca o mundo.

a montanha não duvida
da própria presença.

só a mente humana
acredita precisar
merecer existir.

pensamentos.
memórias.
padrões.
nada disso precisa ser arrancado à força.

o céu não luta contra as nuvens.

há algo mais vasto
do que o movimento da mente.

algo que permanece intacto
mesmo quando o coração treme,
mesmo quando a imagem vacila,
mesmo quando surge vergonha,
mesmo quando tudo parece incerto.

a verdade não grita.
não performa.
não tenta convencer.

a verdade repousa.

neste repouso já não há
como tentar corrigir a existência
basta permitir que a vida respire
sem medo
através do próprio coração.

e assim,
servir já não é um peso.
já não é identidade.
já não é missão carregada nos ombros.

torna-se perfume.
um sopro atravessando o mundo.
uma vela acesa no escuro.
uma presença simples
que não precisa anunciar
a própria luz.

Sathya Ma