

Há dores que atravessam muitas vidas em silêncio.
A relação com os pais costuma tocar lugares muito profundos dentro de nós, porque foi ali que começamos a sentir o mundo.
Antes mesmo das palavras, já existia a necessidade de acolhimento, de proteção, de presença, de um olhar que dissesse:
"você pode existir assim."
E quando isso não foi sentido plenamente — mesmo que tenha existido amor — a criança sente.
Sente a falta.
Sente o medo.
Sente a inadequação.
Sente que talvez precise se moldar para merecer amor.
Muitas das dores que carregamos na vida começam aí.
Uma das compreensões mais importantes nesse caminho é perceber que olhar para isso não significa procurar justificativas ou culpados.
Isso, aliás, só nos mantém presos ao passado, alimentando ressentimentos.
O que foi, foi o que pôde ser.
Nossos pais também chegaram à vida carregando suas dores, seus limites, suas ausências, seus medos, suas próprias feridas não olhadas.
E dentro do que conseguiam enxergar naquele momento, estavam fazendo o melhor que conseguiam.
Esse entendimento começa a dissolver uma parte do sofrimento. Porque aos poucos vamos soltando as mágoas e a exigência de que o passado tivesse sido diferente. Ou de que nossos pais se tornem aquilo que nunca puderam ser.
Algo começa a relaxar dentro de nós.
Esse relaxamento é como um
Sim
Sim para o que aconteceu.
Sim para a dor que existiu.
Sim para a criança que sentiu tudo isso.
É neste sim que um outro movimento pode acontecer:
a possibilidade de olhar para essa criança com a presença que ela não recebeu.
Dar a ela espaço.
Escuta.
Acolhimento.
Permissão para sentir.
Permissão para existir como é.
Quem sabe seja daí que nasce o que muitos chamam de amor próprio.
Não existe outro caminho que não seja pelo amor.
Enquanto essa criança permanece abandonada dentro de nós, ela continuará buscando fora aquilo que faltou.
Nas relações.
No trabalho e na imagem.
Nos prazeres.
Na espiritualidade e nos mestres.
Em inúmeras tentativas de pertencimento.
E nada disso consegue preencher completamente.
Porque existe um momento em que a vida começa a mostrar que a saída não está fora.
A saída é para dentro.
À medida que nos interiorizamos e criamos espaço seguro para sentir — quantas vezes forem necessárias — algo vai suavizando.
Não porque a história muda. Mas porque a relação com ela se transforma.
Então começamos a perceber uma ordem mais profunda nas coisas. Até uma certa beleza paradoxal no caminho vivido.
Porque também foi através dessas travessias que muita força surgiu dentro de nós — sensibilidades e capacidades que talvez nunca tivessem florescido de outro modo.
Para quem se vê nesta travessia, é sempre bom lembrar — só existe o caminho.
É preciso estar disposto a olhar, com abertura para sentir e acolher os fios que ficaram soltos na infância.
O caminho começa a se revelar quando nele caminhamos.
Não ajuda permanecer no vitimismo.
Não ajuda buscar soluções mágicas.
Não ajuda anestesiar a dor.
Não ajuda fingir que nada aconteceu.
E tampouco repetir, de forma superficial, que já entendeu ou já perdoou.
Quando o entendimento realmente acontece, algo mais profundo surge.
E de forma serena e com absoluta ternura compreendemos que não existe ninguém a ser perdoado.
Existe apenas um coração que finalmente compreende. E ao compreender… agradece.
Há algo que testemunhou tudo isso sem ser tocado.
Antes da dor.
Antes da história.
Antes do próprio nome.
Uma presença silenciosa que sempre esteve aqui.
Que nunca precisou ser curada —
porque nunca foi ferida.
Essas dores precisam ser olhadas, suavizadas, compreendidas. Não para que você se torne algo. Mas, para que possa repousar nisso que sempre foi.
Consciência pura, plena e intocável.
A cura, enfim, deixa de ser uma ideia.
E passa a ser amor.
Um amor silencioso.
Maduro.
Agradecido.
Um coração aberto para a vida como ela foi. E como ela é.
Sathya Ma

